domingo, 6 de maio de 2012

de te esquecer

            O Beijo do Hôtel de Ville,Paris,1950 ©Robert Doisneau


…
I

silenciou-se o silêncio que faltava,
e mesmo quando queria mar,
lembrava-se do mar chão em maio pleno de primavera,

e nem as andorinhas que circulavam em rasantes,
destapavam um sussurro, um bocejo que fosse.

Queria ir-se sem o corpo deixar,

se conseguisse seguiria pelas fases da lua
direito aos trópicos do zodiaco,

silenciou-se o silêncio,
silenciaram-se as ondulações que abraçaram o afogar do grito adormecido,
e nem o cantar das baleias naquele instante

aquecia o corpo perto da fogueira.

II

De te esquecer
pensei em tantos dias sem fim, fuga,

talvez eternizasse o silêncio, ou o destecesse
em pequenas missangas vermelhas pelos corais onde adormeciamos

nas noites, e exclamávamos daqueles fogos de artificio
que tudo iluminavam.

Cansa-me o respirar, e os sons que tatuam a minha boca,
fogem quando os ventos norte sopram,

quão distantes os ventos norte,
quão distante sou hoje dos ventos todos.





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[do ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti]




quinta-feira, 3 de maio de 2012

mar

                       Orca branca adulta - Ferop/AFP


…
I

vogam alguns pedaços de madeira
flutuam sem rumo,
nem areal à vista,
nem ilha no horizonte perdido.

Sol que queima a voz seca, gretam os lábios
gastos de tantas palavras sem verbo,

que no principio era-o, sim, fora-o,
e o passado assume-se, reassume-se outras vezes,
adiam-se alguns descansos,

esqueço-me de pensar nos ventos tão perto de mim,
rio-me de um

II

mar que
recolheu todas as lágrimas, evaporou algumas
até paraísos distantes, muito distantes,
inexistentes como as preces,

para que serviram as lágrimas?

e mesmo de joelhos os homens perdoados dos nadas
[como se existissem]
ensurdecem o sonho que teima em fugir,
[não, não o deixo fugir hoje...]

ah...o sonho de uma noite que não tenha fim,
aquela onde fechei os olhos, sem temor,

e senti a pele, a tua pele na minha,
e navegaste-em sem portos, sem abrigos,
sem descansos, sem esquecimento, sem despedida,
sem tempo.

Procurarei por quem eu perdi,
essa voz silenciosa que me chama,

afinal, jamais me esqueci de te esquecer.








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[do ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti]


terça-feira, 1 de maio de 2012

as velas

Lago Bogolybovo, Moscovo, Russia @Denis Sinyakov/Reuters

…
I

fala-me dos nenúfares que as núvens
cobrem,

nos barcos naufragados em terra onde nasceram flores silvestres,

das cores soltas pelo pôr-do-sol
que levantam alguns ventos sem direção,
escondem-se outros.

[Ou...],

nessas palavras em que o verso grita sem destino,
aurora seja,
ou...

qual a cor do amar[?]. Pinta-o numa parede em ruínas,
eu,

II

as velas
libertam-se dos mastros de carvalho, regressam com as migrações
das aves,

liberta-me de mim,

e envolve-me o olhar cansado, arrastado-o como num tango em circulos,

os passos tocam-se levemente,
apenas levemente.

Sabes, eu nunca esqueci
porque sonhava naquelas noites com o mar,
era-me maremoto sem as margens que oprimiam, delimitavam.

Liberta de mim o mar que ainda me restou.







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[do ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti]