quinta-feira, 25 de julho de 2013

regressa-me o esvoaçar do cheiro das tílias

Infalivelmente com a alba,
regressa-me o esvoaçar do cheiro das tílias,
eliminando alguns impossíveis de tão longínquos,

vertentes deste mar sem fim, ou destino.

Existirá sempre mais uma maré, mais um horizonte,
além, ali, aqui,
e quando miro as ondulações símiles às pétalas espalhadas em desalinho,
tocam-me as tuas mãos sossegando-me em sorriso.

Nadas.

E digo-te;
os ventos alísios serão sempre os desejados,
como uma prece regateada de tão longe,
um cais algures, um destino nenhures, tanto deserto em volta.

Quedam-se os corpos antes expectantes,
que se encabritavam em metamorfoses pelas síncopes do dia em versos liquidados,
sem remissão,

e o orvalho de antes converte-se em tempestade,

regressam procelas pelo ocaso,
acolhe-me em sussurro breve, eliminando estes impossíveis imparáveis,
insepultos,

eu.


Sobrevive-me.







"Quando me instalo na aldeia - e nunca será para menos do que os três meses de Verão - hei-de levantar-me infalivelmente com a alba", Aqulino Ribeiro

segunda-feira, 22 de julho de 2013

os poetas têm permissão para mentir

Foto de Domingos Fernandes

Nascem em hexágonos os favos das abelhas,
pelas escadas que se cruzam, sobem sem destino,

quando descem, tocam mares um dia revoltos.

Se me falares das procelas, conta-me dos silêncios das escarpas,
onde adamastores dormem escondidos pelo nevoeiro,

ou que os poetas têm permissão para mentir
num deserto de palavras que as areias escondem,
se também ressurgirem os ecos,
acompanhando as náiades por rios e fontes,

liberta as noites em que ouvíamos as estrelas falar.

Mesmo que queira escrever contra o que me lembro,
o perfume das violetas tardias aparece sempre neste horizonte insepulto que termina em cascata interminável,

tudo recomeça uma outra vez,
0 tempo eterniza-se,

e eu,

regressar-me-ei pelos ventos de norte, 

que um dia,

mar afora me levaram.






Nota:

“Os poetas têm sempre permissão para mentir”, Plínio O Velho.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Das palavras perdidas

Foto de Carlos Cruz


Das palavras perdidas adornadas em sussurros,
pintam-se algumas telas suspensas num quarto deserto,
despovoados os barulhos ali fora, tão perto,
absurdos os ecos julgados revelados de tão omissos, tão perto,

não encontrarei um universo, isso não é para mim,
nem ctónico que seja, nem revelado pelas vicissitudes dos impossíveis medos,
saberei dos gritos, dos gestos que me revelaste
anestesiando o mar em sobressalto.

Poder-te-ia imaginar, apenas
numa pausa do olhar, perene o olhar,

e a mesma voz outrora débil, clamaria em trovão pelo ondear
neste entardecer deserto.

E se não houverem mais palavras?

Ficará esta hemorragia que nos persegue mar adentro, sei-o
pelo desfalecer das velas enfunadas mirrando a cada ventania,

tão símiles aos grãos de areia secos pelo sol a pique.

Avisa-me da chegada dos nenúfares perfeitos quando a matina te clarear os sonhos,


clareia-me o hoje.









Nota:

Ctónico - debaixo da terra, palavra associada a mitos, monstro. As fúrias Hécates, Medusa, habitavam o mundo inferior associadas ao inferno