domingo, 8 de março de 2015

Sabia que sempre ouviria a fala do mar mesmo onde estava sentado tão longe de tão perto


Menção Honrosa XVII Prêmio Estadual Ideal Clube de Literatura – Contos, Prêmio Moreira Campos
In Antologia Ideal Clube de Literatura


Sabia que sempre ouviria a fala do mar mesmo onde estava sentado tão longe de tão perto
(Ricardo Pocinho pseudônimo Maria Francisco)

Desde sempre se lembrava de ouvir o mar mesmo quando aprisionado entre quatro cantos onde o sol jamais nasceria tentando não enlouquecer relembrava ondulações a beleza da violenta procela engolindo o areal na hora de o abandonar onde as crianças brincavam pelo verão quente.
Ao fim destes anos tantos ainda não sabia arrumar as manhãs por descobrir prolongando repousos ao abandono clamando tréguas ou pequenos esboços enquanto as entranhas do corpo zumbiam como medusas cobertas de luzes da abóboda boreal mas não se preocupava muito com isso agora que estava no topo do mundo; nunca lhe tinham quão difícil seria entender o estrondo dos trovões que antecedem o paraíso a eternidade talvez um sopro a mais de um vento norte desalinhado numa terra apressada em que as escuridões se clareiam desconsoladas ao contrário dos amantes em seus afetos sempre por demais frágeis. Um pouco antes tinha observado aquelas multidões vagueando símiles a folhas caídas tapando o húmus por entre estranhas conversas fingidas por perto mas tão longe jazendo adormecidas ou em suspiros e murmúrios controlados do outro lado do espelho ainda intacto em linha reta. Impossível não se deixar invadir naquelas pequenas batalhas vidas que mantêm as indiferenças e as contemplações por um breve silêncio repetidas pelo acordar subitâneo sem um começo perguntou-se então: “para que serve o som?”
A metamorfose da luz encadeava-o relembrava-se do caminho antes trilhado a repetição do que decorara na adolescência “gritas as cores do silêncio pelos sítios sem fim das mimosas das orquídeas o tédio que a poeira dos caminhos invade nada te trazem de novo nem a seda para cobrir a nudez da cascata” porque as partidas são como crepúsculos sós inertes construindo (ou reconstruindo) corpos recordações peregrinas aliviando pequenos esquecimentos na vã ilusão de alcançar.
I
Tinha chegado muito longe sempre com o mar por perto embora por vezes não o ouvisse e mesmo que o pouso ruísse pelo tempo perdido desta ou daquela noite inexorável cobria-se do vermelho incerto das cerejas da mesma forma que volvia olhares inflamados impregnados da maresia que o cantar das estrelas lhe provocava não as entendia nunca as entenderia mesmo se as ouvisse repetidamente até ao desiquilíbrio total do suor rorejando sem paragens libertando cada poro da sua pele já gasta das tempestades de si recriando a nova roupagem com as raízes expostas a ventanias inventadas depois vinha o centro as pedras vivas o intermitente sentido das coisas que queria esquecer.
II
Tudo lhe era estranho até a partida pela noite em que os meteoritos resolveram aparecer em catadupas desencalhados da escuridão adormecida frustrando cálculos longitudes ou latitudes iluminando até uma lua obesa envolta pelo cansaço recolhia a cortina mas precisava do rumorejar da corrente de um ofegante rio unindo-se mar afora sim.
Ao princípio tudo lhe parecera entrelaçado não fossem as imagens que fixara envoltas pelo sonho fio de linho olvidado sem utilidade e tinha a certeza de que esta não seria a sua única ou última experiência ardendo a cada nova investida mesmo que os sargaços inventados alegrassem náufragos de si mesmos sabia que esta terra não era a sua o mundo e no mar sossegam as quilhas perfeitas os centros que apagam os luzeiros os faróis suspensos em promontórios escuros como o breu tudo se escondendo pelos areais submersos onde nasceram algumas casas com flores plantadas na janela.
III
Era tempo de ir não um regresso puro e simples até ao local da partida que o seu olhar já tinha implodido em cores dispersas sem jeito devido à visão perdida um dia pela manhã antecedendo as muralhas do crepúsculo breve e tatuado vezes infinitas como uma ave morrendo em pleno voo antes de descansar nas nuvens sôfregas tudo completando; contemplações dos altos inimagináveis onde se agarrara como uma lapa mesmo que as visões sossegassem apenas por alguns parcos segundos regressariam as outras paragens mais distantes de mundos atropelando-se reconstruindo abismos em bruto nesse afã terrível de conquista anovando velhos ódios vinganças jamais esquecidas símbolos sem nexo desfasados onde o antes caminhava por perto pelo piscar de olhos a bombordo.
...
Sabia que jamais regressaria agora que tinha chegado ao cume do mundo onde o som eco se multiplicava por mil e o acordar na rododáctila saciada afugentara as trevas o vendaval prenunciando a luz de um novo e magnífico dia.
As aparições que as sombras deixaram de refletir desfaziam-se por entre as escarpas pintadas de cal branca ferindo e incomodando os círculos que restaram sem princípio sem volta a dar mesmo quando as luzes se voltarem a apagar pelas paredes das rochas a pique suspiros credos escuridões e onde o cheiro das madressilvas escondem andorinhas lá longe pelos nevoeiros que tudo cercam os homens então confessam-se desapaixonadamente às marés vivas caladas impessoais rasgando eternas memórias desta terra não despojada de gritos perdidos inventados pelas horas desabrigadas com o tamanho das cousas.
Brotam desassossegos.
...
Feridas e cicatrizes crepitavam em falsas tréguas cansadas do voo tão extenso desconhecendo pousos ou cintilantes indicando rotas alguns clarões repentinos se repetiram incandescentes.
Já tinha descansado o suficiente e a sua visão tudo tinha captado ponto por ponto mesmo os pormenores mais ínfimos e embora o níveo fosse predominante por todo o lado se esticasse o pescoço tocaria no azul que cobria o céu de par em par emocionou-se.
Existirão um dia mais tarde tentativas para se explicarem as confidências desconhecidas os nomes dissipados pelo tatear de nadas arrefecidos por sentimentos estranhos que tudo atrapalham e perdem-se os tempos tentando conquistar espaços limítrofes quantos lugares cabem dentro de cada um de nós sem os defuntos olhos negros ou o branco do luto?
Sabia que sempre ouviria a fala do mar mesmo onde estava sentado tão longe de tão perto num repente levantou-se as asas já estavam secas.
Rodou o corpo olhando com toda a atenção mais uma vez as montanhas dispunham-se enfileiradas e a neblina tapava os vales cobertos de neve.
Agradeceu então.
Ao mesmo tempo que o bater das suas asas ganhava mais intensidade um curto salto foi suficiente para que o vento o envolvesse totalmente e o voo recomeçasse nas direções do mar por perto.
Deixara de ser o habitante de si próprio.

4 comentários:

  1. QUERIDO...DIVINO....MERECEDOR DA MENÇÃO RECEBIDA.

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  2. Muito Obrigado pelo carinho Marialice. Um beijinho

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    1. Escrita um tanto non sense, cansativa, com pretensão a poética filosófica elaborada, sem fundilhos; coisa chata mesmo! E depois, quem leu e deu prémio nem sequer reparou que tem falhas com falta de palavras para reliar, bah

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    2. Muito obrigado pelo seu comentário. O texto em si não teve sequer qualquer pretensão (poética, filosófica) apenas saiu assim.

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