domingo, 4 de agosto de 2013

e divago-me por ti

Ljubinka Lepojevic

Sossegam-se os dias pelas noites que se encerram nas imensidões de alguns cometas de tão longe. olha aquele e aqueloutro se esticares o indicador tens de te apressar antes que ele se apague se esconda por entre as cintilantes luminosas

algumas ondulações tocam como mãos a quilha de cedro já gasto ora arribando por ora em vertiginosa descida nas direcções de um vale de tanto mar e grita-se geme o barco antes do embate violento desordenado sejam feitas as breves vontades

e se um dia o sol se recusar aparecer não o saberei imaginar.

Solto-me do azul tão gasto pelo arco-íris,

não que a chuva o transporte até mim,
os ventos,
talvez o levem, além horizonte,

e, divago-me em ti pela noite,
que nada acrescentará à minha rota,

e, mesmo que a terra páre de girar por alguns instantes,

saberei sempre,

que os pássaros escolherão o mar, para descansar.

Resisto-me aos sossegos, às ondulações,
às recusas, aos gritos.
Resiste-se o luar em agosto.




Nota:
divagar - Vaguear; caminhar ao acaso; andar errante.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

quando semeias os ventos

Luis Gonzaga

quando semeias os ventos

Quando semeias os ventos
que ondulam algumas searas adormecidas,

galopam cavalos árabes pelos areais distantes,
que se aproximam pelos sons em silêncio,

,e sinto-te mar,
quando me naufrago pelas palavras.

Observo o cansaço em vão,
visito botequins abandonados,
miro relógios parados sem irritantes ponteiros,
garrafas vazias, o vinho derramado

dos tempos infinitos findos e recomeçados,
distanciados de um cais a ruir,
redutores que sejam
nesses nadas sem significado.

Fala-me do grito dos lírios, das ruas e vielas,
dos rios que nascem do mar entrincheirados pelas margens.

Fala-me do outro que nasce neste eu moribundo.








sexta-feira, 26 de julho de 2013

senti-lo-à o tejo pelas partidas

Misheye - Christian Pearson Photographer Artist 

É pelas alvoradas adormecidas que me ausento,
ausências sem destino,

senti-lo-à o tejo pelas partidas, relembra-me.

E,
os atlantes que deveriam sustentar um céu de escuridões,
ouvem os sons das lágrimas,
tocando o seco areal que as marés cobrirão,
algures,

sem nexo,
sem mores esperanças que um dia,
algum dia,
as tágides voltem a cantar aos que regressam, regressa-me.

Saber-me-ei longe de tão longe,
como as aves que migram buscando os equinócios,
apenas um que seja,

apenas um que me aqueça e me farte em redemoinhos
aos pavores dos ventos, que calam os cometas, cala-me.

Silêncios.

Ruem sonhos, num rorejar farto pelo salso mar em azul,
e,

mais longe ainda,
algumas improváveis tempestades desabrigam-se pelo branco das janelas onde se pintam as tuas orquídeas, desabriga-me apenas por esta noite,

deixa-me ser o verso que treme.

Pudesse eu ser.








... senti-lo-há o Nilo
Pode-lo-há o Indo ver, e o Gange ouvi-lo”
(Camões “Os Lusíadas” canto XXXIII)